Eliana Aparecida Gonçalves

 A escola que queremos para todos.

            Iniciando esta reflexão acerca da escola que queremos para todos elucido que a escola constitui num espaço onde pessoas se encontram. Pessoas diferentes, com diferenças, de diferentes lugares, de diferentes gêneros, de diferentes idades, credos, culturas, físicos, raças... pessoas singulares cada qual exatamente como são. E não como pensa-se que deveriam ser. E no emaranhado de tantas diferenças como construir uma escola “diferente” daquela tradicional e hierárquica que conhecemos? Mantoan nos convida a refletir:

[...] O que seria preciso desconhecer, desaprender, para compreender a inclusão escolar e suas propostas de formação? O que teríamos que desmontar, constatar para que recuperássemos e/ou reconstruíssemos um palco de experimentações, um campo de possibilidades de criação, em que tanto o professor como o aluno teriam sempre presente que tudo o que é pode ser outra coisa?  (Mantoan. Maria Teresa Eglér. 2003).

            Uma escola diferente poderia ser aquela que valoriza as diferenças e as coloca como ponto de partida para diferentes formas de pensar e de aprender. Poderia ser aquela em que as inteligências pudessem ser respeitadas e exploradas nos seus diferentes potenciais. Poderia ser um campo de experimentações vividas e compartilhadas sem julgamentos ou pretensões. Poderia ser leve e naturalmente feliz, porque a isto presta-se o conhecimento: leveza, aproximação, compartilhamento, autonomia, emancipação, devir.

            Uma escola “diferente” requer uma compreensão acerca da diferença. Afinal o que  seria esta tal de diferença?

            O dicionário nos repertoria conceitualizando “diferença” como sendo a qualidade do que é diferente; o que distingue uma coisa de outra, a falta de igualdade ou de semelhança. Mas ainda, e pertinentemente podemos pensar sobre a diferença em outros aspectos.

            Podemos pensar na diferença de Parmênides onde “o ser é e o não ser não é,” no sol sempre novo todos os dias de Heráclito, na essência de Platão. Na natureza rebelde da diferença de Deleuze, filósofo francês contemporâneo. No devir de todos eles e de todos nós. Nas águas dos rios que nunca são as mesmas e nos horizontes sempre a se multiplicar e a se diferenciar. Nas discussões filosóficas sobre monstros morais a serem encurralados, na vista curta de cada um, na falsa estabilidade mascarando o movimento e o devir. Em Nietzsche quando ele pensa o pensar do mundo, essa tessitura de forças e retornos que sem saciedade ou comodismo cria e recria o realidades em todas as suas relações. Um mundo para além do bem e do mal. Um mundo para além do que possa se supor o além. Um mundo de potências... de possibilidades...

E pensando o mundo e suas possibilidades, e pensando nas diferenças de cada um podemos repensar a escola, parte importante do mundo e de todas as possibilidades. Podemos falar sobre a singularidade numa perspectiva onde cada qual com suas peculiaridades legitimam e efetivam o processo de aprendizagem, posto ser este um processo no qual ambos aprendem um com o outro sem que uma inteligência se sobreponha à outra, pois todos somos capazes de aprender de diferentes formas e em diferentes contextos.

Jacques Rancière, filósofo francês, por meio de sua obra "O Mestre Ignorante" discorre sobre a questão do embrutecimento e da emancipação. O embrutecimento, segundo este autor, nega a capacidade do aprendiz de aprender sozinho, resultando em submissão intelectual, ao passo que a emancipação legitima no indivíduo sua capacidade de aprender por si mesmo, sua capacidade de pensar e agir autonomamente, livre da tutela de outrem. Tradicionalmente a escola tem se pautado em questões que levam a um ensino hierarquizado e por conseguinte, embrutecido. Nela o mestre é quem sabe mais e dele partem todas as perspectivas e possibilidades pedagógicas. Já na escola emancipadora, Rancière defende que todos os indivíduos possuem a mesma capacidade de aprender e que a autonomia intelectual é um direito inato, não algo a ser concedido por um mestre. Cabe à escola, ao mestre (professor) ressignificar o processo ensino-aprendizagem e transformar o embrutecimento em emancipação. De acordo com Rancière não há ignorante que não saiba um monte de coisas... apenas aprendemos de formas diferentes. Somos singulares, somos únicos. Então como podemos querer uma escola que trabalhe com um único padrão de ensino, de aprendizagem, de relações, de inteligências. A escola é um direito de todos garantido por lei (artigo 209 da Constituição Brasileira de 1988), e nisso sim somos iguais. Temos o direito. Mas que escola é essa a que direito? Uma escola fundada numa filosofia de identidade que tem se incumbido de rotular pessoas/alunos ideais. De acordo com Burbules, filósofo da educação, “nossas diferenças se multiplicam e vazamos quando dada classe/categoria pretende nos conter.”

Deleuze discorre sobre a ideia de uma “diferença em si” direcionando o conceito de diferença para além da generalidade e conduzindo-o para a particularidade de cada ser. Nesta perspectiva deslocamos os fazeres da escola tradicional para além das diferenças externas (avaliar, quantificar ) e tomamos como base a diferença em si, algo que é próprio de cada ser como questão central da inclusão.

A diferença em si nos reporta a prospectar essa escola inclusiva de que tantos falam e que tantos mais não compreendem de fato. Uma escola inclusiva não faz negócios com o negócio das avaliações classificatórias. E nem com modelos ideais de alunos e identidades pré-estabelecidas. Também não faz conchavos com posições pedagógicas embrutecidas. Tampouco alia-se a conceitos mal interpretados e implantados de uma dita educação especial. Ela vaza nos entremeios das divisões de classes e nas malhas entrelaçadas dos campos de lutas e dominâncias. Não atrela-se a amarras dos métodos de ensino e nem compactua com arranjos pedagógicos que apenas preconizam os fins em detrimentos dos meios. Ela não corrobora com professores e ensino transmissivo. Ela não caminha por estradas onde a desigualdade social costuma caminhar, pois é a visionária de outros, de diferentes, de tantos trajetos que perpassam, ultrapassam e extravasam nas linhas e entrelinhas das vivências humanas.

Trata-se ela, a escola inclusiva, de questionamento e interrogação ao que histórica e hierarquicamente foi-nos posto ou imposto em relação ao que a escola é ou deva ser. É subversão e transgressão, é ainda (trans) versão de ideias e paradigmas pré-concebidos e estabelecidos. É aprendizagem que se dá pelo interesse do aprendente, sendo por isto mesmo meio e não fim. Deleuze discorre sobre a questão dos “perceptos e afectos” quando pensamos na aprendizagem na escola inclusiva. As crianças (alunos) aprendem quando são provocados a aprender em situações de ensino em que interagem com possibilidades de percepção e criação de um novo conceito podendo, a partir deste transbordá-lo transformando-o em um outro (devir). A aprendizagem e todo arcabouço pedagógico caminha em direção à emancipação. O aprendiz (aluno) aprende pelas experiências transformando o que sabe em um novo conceito e assim liberta-se de verdades já sabidas deixando de ser o que é para tornar-se outra coisa para além do que era.

                                                                                ... tudo o que é pode ser outra coisa...

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. [1988]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2021].

BURBULES, Nicholas. Uma gramática da diferença: algumas formas de repensar a diferença e a diversidade como tópicos educacionais. In: GARCIA, Regina Leite; MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa (Orgs.). Currículo na contemporaneidade: incertezas e desafios. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2008. p.159-188. [ Links ]

DELEUZE, G. Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal, 2006

MACHADO. Rosângela. Diferença e Educação: deslocamentos necessários. In: MACHADO, R.; MANTOAN, M. T. E. (Orgs.). Educação e inclusão: entendimento, proposições e práticas. Blumenau: Edifurb, 2021.

MANTOAN. Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar : o que é? por quê? como fazer? / Maria Teresa Eglér Mantoan. — São. Paulo : Moderna , 2003.

 

RANCIÈRE. Jacques. O mestre ignorante: cinco lições sobre emancipação intelectual. Trad. Lilian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015. Prefácio à edição bras

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