Aula 6

A  palavra  “escola”  vem  do  grego  scholeío,  que  significa “lugar  do  ócio”.  No  entanto,  o  "ócio"  para  os  gregos  antigos  não guardava  qualquer  relação  com  algo  da  ordem  da  preguiça,  da vadiagem ou desvalorização do trabalho. "Ócio" para os gregos tem a ver com a atividade contemplativa, ou seja, com uma ruptura no modo  vulgar  e  cotidiano  com  que  nos  relacionamos  com  os fenômenos mundanos. Neste sentido, "ócio" e atitude contemplativa apontam para uma nova lida do sujeito com o conhecimento, uma quebra nos automatismos diários que abre a possibilidade de manter uma relação menos imediata e mais pautada na tarefa de manter com o  mundo  uma  postura  crítica,  reflexiva  e  criativa.  A  escola,  neste sentido, é a inauguração de uma outra experiência de tempo.


Neste encontro, nos aproximamos do pensamento de Jacques Rancière por meio de sua obra "O Mestre Ignorante", na qual ele revisita a experiência singular de Joseph Jacotot — um professor que, ao ser confrontado com a impossibilidade de explicar, descobre a potência de ensinar sem saber. Através dessa figura, Rancière formula uma crítica contundente ao chamado “paradigma moderno de educação"[1], estruturado sobre os pilares da explicação, da autoridade intelectual e da hierarquia entre saberes.


Esse paradigma, segundo Rancière, não apenas organiza práticas pedagógicas, mas também institui uma política da inteligência: uma divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os que explicam e os que precisam ser explicados. A clausura do conhecimento acadêmico, a ortodoxia das experiências legitimadas e a produção de corpos dóceis não são efeitos colaterais — são objetivos centrais de um sistema que perpetua a desigualdade sob o disfarce do progresso e da instrução.


Como nos aponta Mantoan:

A escola não pode continuar ignorando o que acontece ao seu redor     nem     anulando     e marginalizando as diferenças nos processos  pelos  quais  forma  e instrui os alunos. E muito menos desconhecer que aprender implica ser capaz de expressar, dos mais variados modos, o que sabemos, implica  representar  o  mundo  a partir de nossas origens, de nossos valores e sentimentos. (p.12)




[1] De acordo com Gallo (2016, p.16-20), trata-se de um amplo projeto social, político, antropológico e gnosiológico em que a educação (seja como teoria, seja como um conjunto de processos formativos) ocupou um papel de destaque. Um dos aspectos desse projeto foi a emancipação humana e, ao menos no aspecto intelectual, emancipação humana foi compreendida como resultante do processo educativo. Esse processo tem como premissas básicas a disciplinarização do indivíduo; a instrução, que o coloca no mundo da cultura; o fazer com que ele se torne prudente, reconhecendo o seu lugar social e; a moralização, de modo que ele possa ser capaz de escolher os bons fins.

 



ÊTRE ET AVOIR/ 2002 (Ser e Ter) um filme de Nicolas Philibert Realização: Nicolas Philibert / Direcção de Fotografia: Laurent Didier, Katell Djian, Hugues Gemignani e Nicolas Philibert / Música: Philippe Hersant / Som: Julien Cloquet / Montagem: Nicolas Philibert / Com: Georges Lopez. 

Texto: RANCIÈRE. Jacques. O mestre ignorante: cinco lições sobre emancipação intelectual. Trad. Lilian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015. Prefácio à edição brasileira, págs. 9-16.

Em tempo: A deficiência  é concebida como múltiplas determinações  que  não  se  restringem  a manifestações orgânicas, mas que também e  com  igual  força  é  determinado  pelas dimensões sociais, históricas e culturais da vida  humana.  Tão  determinante  como características    corporais    com    suas limitações, incapacidades, funcionalidades e potencialidades,  é  a  leitura  feita  dessa condição,  é  o  olhar  do  outro  e  o  sentido atribuído a ela (MELETTI,2013).

Comentários

  1. A aula de hoje mais uma vez quebra meus paradigmas e me leva a tantas reflexões que pouco consegui falar, embora minha cabeça estivesse a milhões!
    Me lembrou uma criança, Willian, das que tenho convivido mais recentemente, talvez ele seja a que mais resistiu a sua emancipação. Ele sempre se nega a fazer o que lhe é solicitado e faz quando e se quiser, ao mesmo tempo está ali.
    Em junho todas as crianças ensaiavam as danças para a festa cultural uma dança que se chamava “tá caindo fulo” e William brincava livremente, não se curvava às solicitações para fazer o que o grupo fazia de maneira alguma.
    Um dia, no parque, um vento forte bateu e as árvores começaram a soltar flores e folhas, numa chuva linda e ele simplesmente cantou a música inteira, sorrindo e sentindo a natureza em seu rosto, no momento em que aquilo realmente fez sentido para ele.

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  2. Jacques Rancière por meio de sua obra "O Mestre Ignorante" discorre sobre a questão do embrutecimento e da emancipação. O embrutecimento nega a capacidade do aprendiz de aprender sozinho, resultando em submissão intelectual, ao passo que a emancipação legitima no indivíduo sua capacidade de aprender por si mesmo, sua capacidade de pensar e agir autonomamente, livre da tutela de outrem.
    Tradicionalmente a escola tem se pautado em questões que levam a um ensino hierarquizado e por conseguinte, embrutecido. Nela o mestre é quem sabe mais e dele partem todas as perspectivas e possibilidades pedagógicas. Já na escola emancipadora Rancière defende que todos os indivíduos possuem a mesma capacidade de aprender e que a autonomia intelectual é um direito inato, não algo a ser concedido por um mestre. Cabe à escola, ao mestre (professor) ressignificar o processo ensino-aprendizagem e transformar o embrutecimento em emancipação. De acordo com Rancière não há ignorante que não saiba um monte de coisas...

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  3. A palavra do dia é reflexão. As minhas práticas foram bem impactadas para atingir os meus alunos de uma maneira mais significativa. A aula mostrou que a referência deve ser atenuada. Devemos enxergar a educação como uma descoberta, partindo do interesse dos alunos e as aulas devem se tornar cada vez mais “disruptivas”. É preciso derrubar a hierarquização do conhecimento e, ao meu ver, a parte mais dolorosa é vencer o ego e o comodismo.

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  4. Quando tiverem tempo, assistam a esse filme. É um tempo que precisa ser perdido para que se ache o que ele tem a nos dizer. Percam-se na salinha de aula, no recreio, no que as crianças dizem, no que sentem, nas palavras do professor. É um jeito de entender o que é ensinar e como o aprender acontece, no tempo e no jeito de cada um.Queria ter produzido este filme. Tenho inveja de quem o idealizou, dirigiu. Uma aula avançada de Pedagogia.

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