Curta-Inclusão: deficiência como corporação

Marina não vai à praia: curta-metragem

Direção e roteiro: Cássio Pereira dos Santos | Produção executiva: Heverton Lima | Fotografia: Leonardo Feliciano | Montagem: Idê Lacreta | Direção de Arte: Denise Vieira | Som: Camila Machado, Francisco Craesmeyer, Alexandre Jardim | Música: Gianni Dias e Tiê | Música adicional: Super Stereo Surf | Direção de Produção: Vanessa Maciel | Platô: Erika Persan | Produtor local (ES): Vitor Grazie |



Eu não Quero Voltar Sozinho: curta-metragem dirigido por Daniel Ribeiro, de 2010

O Filho do Vizinho: curta-metragem dirigido por Alex Vidigal, ano 2010.

A deficiência faz parte do humano. Alterações motoras, cognitivas, sensoriais, perceptivas e comportamentais sempre fizeram parte da experiência de homens e mulheres. Contudo, os sentidos e valores que conferimos a estas formas de estar no mundo são historicamente construídos. Há, portanto, uma relação de reciprocidade entre aquilo que se constitui, no campo discursivo, como deficiência e a totalidade significativa de uma determinada época histórica. De condição individual associada à aberração e à monstruosidade, a deficiência já foi justificativa para o abandono, a exclusão e o extermínio.

 O século XIX e a afirmação do discurso científico deslocou a deficiência para o campo biomédico. O “indivíduo anormal, incompleto e incapaz” que precisava ser corrigido, curado e institucionalizado. “No final dos anos sessenta, surgiram em diversos países ocidentais, movimentos sociais que reivindicavam os direitos de grupos específicos, como mulheres e negros e, neste contexto, a politização das pessoas com deficiências ganhou força.” (GAUDENZI, 2016, p. 3062).

As principais demandas apontavam para uma crítica à percepção da deficiência circunscrita exclusivamente à condição neuro-psicofisiológica do indivíduo. Tratava-se naquele momento – décadas de setenta e oitenta – de operar um deslocamento estratégico dos referenciais semânticos estruturadores do campo de luta, do domínio médico-institucional para o domínio político lato sensu.

Trazer a deficiência para o domínio do político significava relacioná-la a um conjunto plural de acontecimentos, relações de força e situações que comumente não eram pensadas como fazendo parte do quadro ligado à condição da pessoa com deficiência. Como esse mundo acolhe ou não essa condição, esses modos de ser desviantes dos padrões normatizadores e normalizadores dos corpos?

Tais movimentos serviram de base para uma transformação teórica sobre o próprio conceito de deficiência. Uma transformação conceitual em que a deficiência passa a ser lida nos seus múltiplos atravessamentos com outros marcadores político-sociais da opressão, como por exemplo, classe, sexualidade e gênero.

Desde então, justamente esse caráter social e político da condição da pessoa com deficiência no interior de um espaço marcado pelas mais variadas formas de violência identitária assume uma centralidade nas discussões acadêmicas, reorientando e remodelando os discursos sobre a inserção e escolarização das pessoas com deficiência nos diversos espaços.

O mérito desses curtas sugeridos é o de que todos eles - cada um à sua maneira -  deslocam o tema do corpo com deficência para pensar a deficiência como corporação. Frente a uma tradição que elege a identidade como hierarquicamente superior à diferença, o que pode o corpo com deficiência? As produções rompem com uma perspectiva do corpo com deficiência que oblitera as subjetividades, essencilizando esse corpo, definindo-o, enclausurado-o na ferida da deficiência, da inadequação.

O que esses curtas-mentragens nos sinalizam é que corpo é verbo. Corpo não é substantivo. Corpo é gerúndio, processo, embate, conflito de forças em tensão. Corpo é sempre o resultado provisório de um embate de forças cujo resultado produz provisoriamente uma unidade hegemônica, porém nunca absoluta. Como corpo não é substância, substantivo, essência, natureza etc., corpo está sempre historicamente sendo constituído e reconstituído. Territorializado, desterritorializado e reterritorializado. A unidade que vem daí é sempre uma unidade frágil, unidade ameaçada.

Corpo é processo de corporação. Não há corpo, o que há é processo de corporação. Processo de subjetivação. Processo agonístico de produção permanente de subjetividades. Sujeitos assujeitados, ou seja, sujeitos submetidos ao conjunto das relações de força que entram em jogo a todo instante. Assim entendido, corpo é unidade na pluralidade. Como unidade na pluralidade, corpo é movimento, direcionalidade. Singularidade e unicidade.


 

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