Aula 7



"No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos 

O verbo tem que pegar delírio."

(Manoel de Barros)

Chegamos à metade do curso. Rancière nos conduz ao encontro com Joseph Jacotot — um professor que recusa ser mestre no sentido tradicional. Ele não ensina para transmitir saberes, mas para afirmar que não há hierarquia de inteligências. Para Jacotot, qualquer um pode aprender qualquer coisa, desde que esteja mobilizado pela vontade e pela atenção. A escola, nesse horizonte, deixa de ser o lugar da explicação e passa a ser o espaço da emancipação: não se trata de conduzir o outro ao saber, mas de reconhecer que ele já é capaz.

O ato educativo, portanto, não é apenas pedagógico — é filosófico e político. Emancipar é sustentar a curiosidade que pulsa na base de cada pergunta, é confiar na inteligência do outro sem mediá-la por tutelas. Como nos lembra Rancière, o mestre ignorante é aquele que ensina sem saber, que acompanha sem dominar, que afirma: “Você é capaz.”

Nosso encontro foi atravessado por temas que reverberam na contemporaneidade: a crise da verdade, a avalanche de desinformações, o embrutecimento das relações e dos discursos. Em meio a esse cenário, pensar a educação como espaço de emancipação é um gesto radical. É devolver à pergunta sua potência original — não como instrumento de avaliação, mas como expressão de desejo, de inquietação, de vida.


MOREAU. Didier. Paradoxos e lógica da emancipação intelectual. In: GALLO, Silvio. (Org.) Diferenças e Educação: escapar ao conformismo. São Paulo: Intermeios, 2021. 

Texto: RANCIÈRE. Jacques. O mestre ignorante: cinco lições sobre emancipação intelectual. Trad. Lilian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015. Capítulo: A razão dos iguais. 

Comentários

  1. A aula de hoje me fez pensar nas pessoas com deficiência e a emancipação intelectual deles, se uma pessoa sem diagnóstico já encontra ao longo de sua vida milhares de obstáculos para que ela não ocorra, então quanto mais uma pessoa que tem sua vida decretada a partir de um documento fornecido por um profissional da Saúde e junto dele um combo com acompanhante terapêutico, inúmeras terapias e terapeutas, cada um deixando impregnado um pouco de suas crenças nessa pessoa, podando cada vez mais

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  2. Tudo está em tudo. Esta ideia de Jacotot nos remete a pensar nas "diferenças" de cada um e no quanto estas compõem e recompõem a realidade. Uma realidade que apesar de recortada por diferentes perspectivas nos reporta a pensar no outro e nas relações estabelecidas nas tessituras da vida. O outro é outro e também somos nós. O que perseguimos como seres humanos está em nós e está no outro. E a despeito de ideias arraigadas e desprovidas de reflexão no campo das dominâncias ainda podemos nos convidar a pensar no quanto somos sujeitos no processo de emancipação. Estamos sempre em devir...

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  3. A emancipação muitas vezes é podada na escola, que se ilude achando que a promove. A escola promove a disparidade entre o mestre e o sujeito. O texto trouxe ideias que surgiram há muito tempo, mas que ainda observamos atualmente no chão da escola. A emancipação foi a palavra do dia e introduzir ela no cotidiano escolar é o nosso grande desafio como professores, seres humanos e rebeldes.

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  4. Avançando aos poucos, estamos penetrando na escola inclusiva , conhecendo-a em seus contornos, descobrindo-a por acaso ou por busca determinada.

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  5. Cada vez mais a gente se convence de que o tempo é o senhor da vida e de tudo o que ela nos proporciona. Esperar, mas crendo nas transformações.

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