Diários de aula

 


Ao final de cada encontro, registramos em palavras nossas impressões, inquietações e aspirações surgidas a partir das discussões realizadas. Este diário, portanto, é um espaço de compartilhamento sensível das nossas inquietações — não com a intenção de esgotar os textos debatidos, nem de buscar sentidos, significados ou interpretações definitivas, mas sim de acolher o que nos atravessa e permanece ecoando.

Dia 05/08

A aula inaugural da disciplina partiu de um questionamento central: o que cada um de nós espera encontrar nos debates promovidos ao longo do curso? O que chamou a atenção foi que, ao responderem a essa provocação, os integrantes da turma, de modo geral, percebem a escola como um espaço de enquadramento, uniformização e calcificação de práticas e saberes. Como transformar esse estado de coisas? O que pode, afinal, a escola? (Angelissa)

Dia 12/08

Identidade e Diferença. Como permitir que essa gramática circule entre os muros altos das cristalizações e os silêncios impostos pelos enrijecimentos? Que medo é esse que impede essas palavras de se moverem livremente? Talvez seja o receio de que, ao deixarmos nossos canteiros bem delimitados, sejamos engolidos pela floresta — esse lugar de multiplicidade, mistério e indomesticável potência. Mas é justamente aí que reside a urgência: restaurar a intimidade com o que escapa, com o que não se deixa capturar, com o que pulsa fora das margens. (Angelissa)

Dia 19/08

Pensar em identidade e diferença tem sido um exercício desafiador. O desafio se intensifica, sobretudo, dentro da minha casa, quando olho para o Lucas. Um filho que é tanto, que ocupa tanto espaço, e que me impõe inúmeros deslocamentos. Um filho que é — e que não é. Não é, porque sua existência faz desmoronar todo o sustentáculo do homem da razão. “Penso, logo existo!”, teria escrito Descartes. “Sinto e existo!” — é o que meu filho me diz com suas mãos rápidas em movimentos repetitivos e seus grunhidos indecifráveis. Aceito, mas não compreendo. Experimento, e às vezes me parece insuportável. E, nesses encontros e desencontros, vamos — eu e meu filho — tecendo a nossa existência. (Angelissa)

Dia 26/08

O que pode a existência? As coisas são ou estão sendo? Que falta faz a essência se o viver se dá no plano da aparacição, da aparência? Os debates sobre identidade e diferença nos requisitam um abandono das nossa convicções tão solidamente construídas. É preciso olhar para aquilo que sobra, que resta, que vaza. "É tomar a vida como ela chega." (Angelissa)

Dia 02/09

Dia 09/09

Sobre emancipação, criança e existência. Mãe, nós existimos? Essa frase despretensiosa da Nina, minha filha, ganhou contornos distintos na aula de hoje. Essa estrangeiridade do pensar e de experimentação do tempo da presença. Se aventurar pelo pensamento. É isso que Jacotot acentuava como emancipação. Uma atitude curiosa com o mundo. Não há mais ou menos inteligências. Há devires. (Angelissa) 

Dia 16/09

Professora, posso perguntar? O que pode uma pergunta? Não aquela em que o mestre já conhece a resposta, mas a pergunta que provoca deslocamentos, que inunda o pensamento e desestabiliza certezas. A escola deveria ser o lugar onde qualquer pessoa se sente habilitada a perguntar sobre qualquer coisa. Qualquer coisa. Quando foi que abandonamos a dimensão da curiosidade e da busca, cedendo espaço à ordenação e ao embrutecimento? (Angelissa)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog