Aula 5
Identidade e Diferença: o que isso tem a ver com inclusão?
A ferrovia foi pintado em 1872 por Edouard Manet.
A passagem do século XIX para o século XX é marcada por uma profunda crise. A chamada crise do princípio do fundamento, crise dos suportes metafísicos da tradição ocidental, crise das identidades hegemônicas, é justamente o acontecimento histórico a partir do qual emerge o pensamento contemporâneo, a condição contemporânea. Esta crise que inaugura o contemporâneo será dita e experimentada em múltiplas dimensões: crise do sujeito, crise da identidade, crise do fundamento, crise da representação, crise da linguagem.
Esse Acontecimento histórico marca a transformação radical do homem em relação às coisas em geral. Com a totalidade do que é. Neste sentido, categorias metafísicas não têm mais como estruturar a existência, ou seja, a impossibilidade de continuar operando com as categorias da tradição.
Foi Nietzsche quem descreveu pela primeira vez a existência como não vindo de lugar algum, vai pra lugar nenhum, não tem ser imanente e não tem ser transcendente. A Morte de Deus, portanto, estaria ligada à impossibilidade das configurações da realidades serem reduzidas a categorias preexistentes. Trata-se de um questionamento radical de alguns dos pilares de sustentação do projeto político moderno, pautados nos valores de civilização, do progresso, da autonomia do sujeito racional.
O pressuposto de um acesso privilegiado ao real por meio da razão científica vai sendo atravessado por uma crescente consciência da historicidade de todas as coisas e de todas as posições assumidas no presente. Um alargamento radical da nossa consciência histórica no mundo. Uma desconfiança difusa e generalizada em relação à tradição, e uma ruptura sem precedentes entre passado, presente e futuro.
Mas se estamos acentuando que há uma crise do princípio do fundamento, das identidades metafísicas, seria importante falarmos um pouco, de forma muito sucinta de que tradição de pensamento do ocidente estamos falando. De imediato, podemos dizer que não se trata de uma tradição que ficou no passado, de algo que ficou para trás. Algo que funcionaria como uma espécie de museu ideológico.
Estamos falando aqui de uma tradição que compõe os modos de determinação que continuam completamente presentes entre nós, estruturando os nossos comportamentos em geral, por mais que esses modos de estruturação não consigam mais, às últimas consequências, dar sustentação aos nossos modos de existência como deram um dia.
Que tradição é essa? Conhecer, para a tradição, é o movimento de saída do campo dos fenômenos, do campo da aparência, em direção ao campo do fundamento, da essência, das causas primeiras.
Conhecer é abandonar a multiplicidade em direção a uma espécie de identidade pura, descontaminada, imaculada. Movimento de saída da aparência multiforme para a identidade monocromática. De uma multiplicidade inacabável para uma identidade una e simples.
Este modo paradigmático da tradição pensar o movimento do conhecimento pode ser melhor evidenciado se perguntarmos pelo modo de relação entre identidade e diferença.
É no Livro IV da Metafísica, de Aristóteles, que encontramos a expressão mais bem acabada da tradição de pensamento entre identidade e diferença no Ocidente.
Na obra citada, Aristóteles leva a consumação certas influências que vinham sendo trabalhadas no interior do pensamento de Platão. Segundo esse antecedente platônico, a diferença aparece como algo que precisa ser pensado como “o outro do ser”. Tal afirmação aparece no diálogo O Sofista cujo contexto sinaliza para uma certa apropriação do pensamento de Parmênides.
A sentença lapidar de Parmênides diz O ser é, o não-ser não é. O ser constitui substância permanente das coisas, e o não-ser (a negação do ser) não tem substância, não tem essência. Por possuir uma positividade, substância, propriedades essenciais etc, o ser é idêntico a si mesmo, o que significa dizer que ele possui identidade. Ao mesmo tempo, como o não-ser não é, não há lugar para pensar aquilo que não cai sob a determinação do ser. Não há lugar para pensar - segundo a tradição Ocidental - tudo aquilo que difere do ser, da identidade. Não há lugar para pensar a diferença porque ela é previamente julgada como aquilo que é privada do ser, da identidade.
A tradição desontologizou a diferença e promoveu, por meio desse gesto, uma série infinita de posições binárias que trazem e perpetuam hierarquizações que estão na base dos processos de violências identitárias. ser/não-ser, essência/aparência, permanência/movimento, unidade/multiplicidade, identidade/diferença.
Se a identidade possui ser, possui determinação, a diferença é sempre pensada privativamente como uma modulação da identidade. Deste modo, para a tradição de pensamento ocidental, a diferença sempre foi pensada como um epifenômeno da identidade. Um fenômeno secundário, acessório e tardio.
Mas a identidade não é assumida apenas como se fosse um elemento primário. Ela serve ainda para corrigir a ausência de fundamento das ações. Com isso, ela pretende dar sustentação aos comportamentos em geral. Noções como identidade, essência, fundamento, substância, causalidade e natureza são noções que passam a constituir um campo a partir do qual pensamos a nossa existência.
Conhecer passa a ser abandonar a multiplicidade em direção a identidade de fundo que sustenta o fenômeno observado.
“Só se conhece plenamente alguma coisa, na medida em que se conhece aquilo por meio do que ela é: sua causa, seu fundamento.” Aristóteles. (Livro IV da Metafísica).
Essa crise vai abrindo, ao longo do século XX, múltiplas respostas. Movimentos críticos ganham o corpo social e alimentam questionamentos que batem às portas da Academia. Será, sobretudo, no pós-Segunda Guerra Mundial que ganhará força, em diversos países do Ocidente, movimentos sociais que traziam à luz a complexidade e os atravessamentos de múltiplos marcadores sociais da diferença: feminismos, lutas antirracistas, movimentos gay, movimento estudantil…
O campo artístico experimentará um cenário de muito ativismo político e experimentação estética. O cinema, o teatro, a dança, a música e a literatura serão marcados por um desejo genuíno de mudança e criação.
Identidades hegemônicas passam a ser questionadas em toda a sua precariedade, abrindo um campo não unívoco de respostas críticas que faziam ecoar as falas daqueles e daquelas que se viam silenciadas por inúmeras violências.
Deleuze é um pensador cujo pensamento parte dessa crise do fundamento. Condição do sem fundo da existência. “Nada tem fundamento” (Deleuze) em contraposição à tradição.
Deleuze vai ser o pensador de novos modos de existência, novos modos de habitação. Neste sentido, as análises são feitas em termos de movimento. Acompanhar o que está acontecendo no acontecimento. Abandonar as categorias gastas da tradição. Pensar é ser invadido pelo evento. É se deixar tomar pelas forças em jogos produção daquilo que é pensado. É se deixar tocar por aquilo que agora precisa ser pensado, contra uma concepção filosófica que compreende a filosofia como um museu de ideias. Ao se deixar tocar, você percebe que os conceitos da tradição, muitas vezes, não são aplicáveis. É criar conceitos que não tem parâmetros. Uma das tarefas mais importantes da filosofia de Deleuze é a de pensar a diferença em si mesma, insubordinada à identidade, ou mesmo ao Ser.
Se a disciplina "Diferença e Inclusão" se aproxima da obra de Deleuze é por entender a obra deste autor - assim como de outros filósofos franceses do período – como um espaço de afirmação do primado ético-político-ontológico da diferença em relação à identidade. Para Deleuze, a diferença é mais originária do que a identidade. Deleuze é um autor cujas obras de pensamento buscam transverter o modelo binário que estrutura a tradição de pensamento no Ocidente, segundo a qual, a diferença precisa sempre ser pensada como o outro do ser, o outro da identidade.
Textos: BURBULES, N. Uma gramática da diferença. In: GARCIA Regina. MOREIRA, Antonio.Currículo na contemporaneidade: incertezas e desafios (2006). Editora Cortez, 2018.
MANTOAN, M. T. E. Inclusão diferença e deficiência: deslocamentos, proposições.
SCHÖPKE. Regina. Uma genealogia da diferença. In: Por uma filosofia da diferença: Gilles deleuze, o pensador nômade. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.
A aula de hoje mais uma vez desconstrói meus pensamentos enraizados e moldados ao longo da minha vida e que fazem parte de raizes, e eu acho isso maravilhoso.
ResponderExcluirUm pensamento que me afetou bastante foi que “A educação deve fazer sentido para nós, nos dar a satisfação de conhecer, como uma busca que não tem fim, uma descoberta real de algo que pra nós seja interessante, temos que mudar as coisas a partir de nós e também buscar junto com o estudante o que faz sentido para ele ”.
Temos que lembrar que a escola é um encontro com pessoas, cada uma sendo quem ela é.
A aula apresentou conceitos e discussões sobre a diversidade e desnudou os pensamentos que eu tinha sobre este termo. Das conversas que tivemos, o pensar na educação inclusiva para ela ser um projeto futuro foi o que mais me causou impacto, tendo em vista os modelos atuais de “inclusão”. A maneira que cada indivíduo deve ser compreendido está além da aparência e cada ser humano é um universo, sendo muitas vezes podados pela escola desde a sua infância.
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